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Crianças que precisam de “rock & roll” para dormir

Rodar a cabeça, balançar o corpo ou até mesmo bater com a cabeça no berço/parede parece ser o ritual de adormecimento perfeito para muitas crianças. No entanto, é terrível para os pais que assistem a tudo isto, muito angustiados. Por um lado, há o receio de que se magoem seriamente no processo mas também se associam estes movimentos repetitivos a distúrbios neurológicos ou a atrasos no desenvolvimento.

A verdade é que estes comportamentos costumam acompanhar as diferentes fases do desenvolvimento da criança. Resultam, por isso, do esforço que faz para aprimorar o movimento que está a aprender a executar. Começando por volta dos 4 meses de idade, quando o bebé ganha controlo da musculatura do pescoço, podem surgir os movimentos ritmados de rodar a cabeça na hora de dormir. Aos 6 meses rola o corpo e a partir dos 9 meses podem iniciar os batimentos da cabeça contra a almofada ou o berço, por exemplo. A criança ganha controlo sobre o próprio corpo, ao mesmo tempo que procura adormecer sozinha.

 

O porquê da necessidade do movimento rítmico

Sabe-se que esta cadência de movimentos proporciona uma sensação prazerosa e muito calmante para a criança (por estimulação do sistema vestibular, que é o conjunto de órgãos no ouvido interno que regula o equilíbrio). Por isso é que as crianças (e não só!) adoram andar num baloiço e, muitas vezes de forma bem vigorosa!
Enquanto alguns bebés precisam da sucção (mama ou chupeta, por exemplo) para acalmar e adormecer, outros preferem o aconchego do colo (ou de uma manta bem fofa enrolada à sua volta) e outros, ainda, gostam do movimento ritmado do corpo.

Estima-se que cerca de 20% das crianças saudáveis manifestam esta necessidade de serenar através de movimentos rítmicos. A partir do momento em que se cria o mecanismo de auto-conforto com movimentos repetitivos, estes comportamentos podem acontecer não só na hora de dormir mas também sempre que a criança se sinta angustiada, ansiosa ou demasiado excitada. Alguns dirão que o rock & roll está-lhes no sangue!

O que fazer perante um episódio destes?

A prioridade será sempre evitar que se magoe, daí que um bom contorno de berço seja o primeiro recurso a utilizar. Pode ser realmente muito aflitivo ver uma criança a bater voluntariamente com a cabeça na parede para adormecer e é importante perceber que não está a auto-infligir dor mas a captar um ritmo com o próprio corpo.
Mas há mais ferramentas que podemos usar para ajudar a criança a atravessar esta fase de forma serena e sem angústias:

– Afastar a cama da parede. Neste caso, a criança pode começar a usar a cabeceira da cama para produzir o barulho e o ritmo pretendido. Estejam preparados para essa eventualidade (almofadar a cabeceira da cama poderá evitar lesões e hematomas).

– Oferecer-lhe um boneco que vibre, para que não sinta tanta necessidade de mexer o corpo.

– Deixe no quarto um relógio que faça um tique-taque sonoro. Alguns especialistas sugerem um metrónomo mas trata-se de uma opção mais dispendiosa.

– Inclua uma música com um ritmo marcado (como uma marcha) no ritual de adormecimento. A música do desenho animado “Bob, o construtor” é um bom exemplo e podem adaptá-la ao vosso filho e circunstância (por exemplo: “Eu sou a Maria e vou dormir. Eu sou a Maria, sempre a sorrir!”). Pode associar alguma percussão mas com sons abafados, para não deixar escalar em grande algazarra. Uma pequena caixa de cartão, que não produza um som muito forte será suficiente.

– Certifique-se de que a criança se comporta normalmente durante o dia e não mostra sinais de algum stress ou angústia. Os movimentos ritmados podem ser manifestações de ira, de frustração ou de outros sentimentos que a criança possa estar a digerir, pelo que é importante atendermos a uma eventual origem psicológica.

– Agir com a naturalidade possível e não restringir os movimentos da criança. Deve-se evitar associar uma carga negativa e dramática a estes episódios. São mais comuns do que pensamos e também passageiros. A criança pode adoptar o balanço e os batimentos como forma de obter atenção dos pais, caso se crie demasiado alarido em torno da situação.

Na grande maioria das vezes, os movimentos ritmados associados ao sono duram, no máximo, 15 a 20 minutos e não são um indicador de distúrbios fisiológicos ou psicológicos. Surgem nos primeiros meses de vida e vão desaparecendo com o avançar da idade, o mais tardar por volta dos 3 anos de idade (apenas 5% das crianças mantêm este rock & roll para dormir aos 5 anos de idade).

Abracem o gosto pelo ritmo que a vossa criança manifesta e valorizem brincadeiras apropriadas, durante o dia: andar no baloiço; música e dança; percussão; actividades físicas organizadas. E, claro, nunca será demais referir a importância do acompanhamento da evolução em Pediatria.

Imagem: www.headbumpa.com.au