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Escuro, medos & superação

Os pais começam a levar a sério a questão dos medos quando as suas crianças começam a contar pesadelos aterradores e se recusam a dormir num quarto sem um pingo de luz.
A verdade é que uma criança sente medo muito antes disso. A partir dos 6 meses de idade, quando o bebé começa a perceber que é uma unidade distinta e destacável da mãe e do pai, pode surgir a ansiedade da separação e o medo do abandono por parte dos seus progenitores (para um bebé, ver o pai sair para comprar pão pode comparar-se a vê-lo emigrar para a Venezuela!).

Depois vem o medo dos animais, porque são imprevisíveis (vá-se lá saber porquê, podem reagir mal quando um bebé lhes puxa a cauda, as orelhas ou os bigodes!) e mordem, lambem e saltam, de preferência em simultâneo (é muita informação para processar e são impossíveis de controlar).

Mas o pior vem mesmo a partir dos 2 anos e meio…
Nesta idade, as crianças já têm um universo bastante complexo de palavras, emoções e personagens. O problema é que não conseguem distinguir com muita eficácia o real do imaginário (aptidão que se desenvolve em pleno por volta dos 5 anos de idade). Durante o dia, o vosso filho pode brincar alegremente com um dragão, que até ajuda nas tarefas de casa e tudo (o jantar até é feito ao lume que sai directamente das suas narinas!). Mas à noite é quando o bicho revela o seu lado mais sombrio: embora se tenha fingido de amiguinho durante o dia, à noite está ali, deitado ao lado do petiz, com um olho fechado e outro aberto (vermelho e luzente, em cima da mesa de cabeceira; qualquer semelhança com a luz do despertador é pura coincidência!), à espera que o miúdo adormeça para o poder devorar!

Pois é, os medos surgem com as vivências e estão muito associados a etapas específicas do desenvolvimento da criança. A forma e a intensidade com que os vivem dependem do temperamento da criança, dos pais (que são sempre os modelos a seguir) e dos cuidadores. Quanto mais os pais tendam a educar através do medo, mais ansiosa e temerosa será a criança (já ouviram, com certeza, indicações destas: “se subires ao armário vai-te aparecer um bicho mau”; “se te portares mal, vem o polícia e prende-te”).

O que é que nós, pais, podemos fazer para ajudar? Muita coisa!
E logo a primeira é resistir à tentação de ridicularizar a criança que está aterrorizada. Ouçam com atenção, tentem perceber o que está por detrás desses terrores. Vejamos o seguinte exemplo: aquela aranha minúscula que acabou de assustar o vosso filho pode parecer inofensiva mas, aos olhos dele, pode ser como aquela rã quase microscópica que produz um veneno capaz de matar 30 búfalos. As crianças também vêem os documentários sobre a vida selvagem e adoram e nós achamos muito bem, porque é educativo! Aqui aproveito para introduzir já a segunda dica, em jeito de 2 em 1: usem a imaginação para desviar o vosso filho do medo e transmitir-lhe segurança. Seguindo o exemplo anterior, podem dizer à criança que sabem perfeitamente que aquela é uma aranha da espécie “aranhosus dosmesticus”, que só come aquelas moscas pequeninas, da fruta, ou até usar um spray anti-monstro super-eficaz (anotar na lista de compras: vaporizador)!

Terceiro ponto: nunca deixem uma criança assustada sozinha. Claro que ela deve tentar enfrentar e superar os medos sozinha mas cabe aos pais oferecer todo o suporte. Os pais só devem sair do quarto quando a criança estiver serena. Podem também definir estratégias de apoio, como garantir que passam pelo quarto de 5 em 5 minutos, deixar a porta do quarto aberta para que a criança não se sinta isolada ou até mesmo espreitar debaixo da cama, à procura de monstros. E, claro, considerem seriamente a utilização da luz de presença!
Por outro lado, há que adoptar medidas de contenção, ou seja, diminuir a exposição do vosso filho a situações assustadoras, incluindo programas de TV, jogos de consola e livros. Lógico, certo?

Aceitem a situação com naturalidade, assumam que também já sentiram medo e que conseguiram superá-lo. Conversem. Muito. Com o crescimento e a maturação cognitiva e emocional, os nossos pequenos vão ser capazes de encontrar estratégias eficazes para lidar com os medos.
Não podemos proteger os nossos filhos dos seus temores, eles vão aparecer sempre, de uma forma ou de outra. Fazem parte do nosso instinto de sobrevivência e são até salutares, sempre que forem vividos de forma consciente, racional e moderada (o medo empolado ao exagero origina a fobia, muito mais difícil de “domesticar”).


Fontes das imagens:
Figura 1- http://www.wholeparent.com/2015/11/04/when-children-are-afraid-of-dark-and-how-parents-can-deal-with-it.html
Figura 2- Pixar/Disney
Figura 3- http://www.estefimachado.com.br/search/label/spray%20anti-monstro
Figura 4- http://cdn.sheknows.com/articles/2010/12/A_mom_taking_care_of_boy.jpg